ISAIAS 53
ISAIAS 53
As duas grandes verdades que o Espírito de Cristo testificou
antecipadamente nos profetas do Antigo Testamento foram os sofrimentos de
Cristo e a glória que se seguiria (1 Pe 1.11). E aquilo que o próprio Cristo,
quando explicou Moisés e os profetas, mostrou ser a motivação e o objetivo de
todos eles, era que “convinha que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na
sua glória” (Lc 24.26,27). Mas em nenhuma passagem, em todo o Antigo
Testamento, elas são profetizadas de modo tão claro e tão abrangente como aqui,
nesse capítulo, de onde várias passagens são citadas com referência a Cristo,
no Novo Testamento. Esse capítulo é tão abundante das riquezas incompreensíveis
de Cristo que poderia ser chamado de Evangelho do evangelista Isaías em lugar
de Profecia do profeta Isaías. Aqui, podemos observar:
I. A vergonha dos sofrimentos de Cristo - a humildade a sua
aparência, a enormidade de seus
sofrimentos, e os preconceitos que muitos alimentaram, consequentemente, contra
a sua doutrina (w. 1-3).
II. O afastamento dessa vergonha, e a honra imortal sobre os
seus sofrimentos, apesar da sua desgraça e ignomínia, por quatro
considerações: 1. Com esses sofrimentos,
Ele realizou a vontade de seu Pai (w.
4,6,10).
2. Com esses
sofrimentos, o Senhor Jesus Cristo expiou o pecado dos homens (w. 4-6,8,11,12),
pois Ele não sofreu por nenhum pecado seu, pois jamais pecou (v. 9).
3. Ele suportou seus sofrimentos de modo insuperável e exemplar
(v. 7).
4. Ele seria
bem-sucedido na sua missão, e seus sofrimentos culminariam na sua honra imortal
(w. 10-12). Mesclando a fé com a profecia desse capítulo, podemos aprimorar
nosso conhecimento de Jesus Cristo e de sua crucificação, com Jesus Cristo e
sua glorificação, o qual morreu pelos nossos pecados
e ressuscitou para nossa justificação.
A Humilhação do Messias
No final do capítulo anterior, o profeta tinha previsto e
predito a gentil recepção que o Evangelho de Cristo encontraria entre os gentios,
que as nações e seus reis lhe dariam as boas-vindas, e que aqueles que não o
tinham visto creriam nele. E embora eles não tivessem nenhuma profecia da graça
do Evangelho que pudesse fazer com que as suas expectativas crescessem, e que
se predispusessem a recebê-lo, ainda assim, à primeira notícia dele, eles
deveriam lhe dar o seu devido valor e consideração. Aqui Isaías prediz, com
assombro, a incredulidade dos judeus, apesar dos avisos anteriores que tiveram,
no Antigo Testamento, da vinda do Messias, e da oportunidade que tiveram de
conhecê-lo pessoalmente. Observe Aqui:
O desprezo que eles dirigem ao Evangelho de Cristo (v. 1). A incredulidade dos judeus na época do
nosso Salvador é mencionada expressamente como sendo o cumprimento dessa
palavra (Jo 12.38). E ela é aplicada, da mesma maneira, ao pouco
sucesso que a pregação dos apóstolos encontrou entre os judeus e gentios (Rm
10.16). Observe: 1. Dos muitos que ouvem o relato do Evangelho há poucos que creem
nele. Ele é narrado abertamente, publicamente,
e não sussurrado em um canto, ou confinado às escolas, mas proclamado a todos.
E é um relato tão fiel, e tão merecedor de toda aceitação, que poderíamos
pensar que deveriam recebê-lo e crer nele, em todas as partes. Mas o que
acontece é exatamente o oposto; poucos creram nos profetas que falaram sobre
Cristo; quando Ele veio, em pessoa, nenhum dos governantes nem dos fariseus o
seguiu, mas somente aqui e ali, algumas pessoas do povo comum. E, quando os
apóstolos levaram esse relato por todo o mundo, alguns, em todas as partes,
creram, mas comparativamente, muito poucos. Até hoje, dos muitos que professam
crer nesse relato, há alguns poucos que cordialmente o aceitam e se submetem ao
seu poder.
2. O povo não creu no relato do Evangelho porque o braço do
Senhor não foi revelado a eles. Eles não
discernem, nem serão levados a reconhecer aquele poder divino que acompanha a
palavra. O braço do Senhor está desnudo
(como foi dito em Isaías 52.10), nos milagres que foram realizados para
confirmar a doutrina de Cristo, no seu maravilhoso sucesso e na sua energia
sobre a consciência. Ainda que seja uma voz, é uma voz forte; mas eles não se
dão conta disso, nem sentem, em si mesmos, essa obra do Espírito que torna a
palavra eficaz. Eles não creem no Evangelho porque, rebelando-se contra a luz
que possuíam, tinham perdido a graça de Deus, a qual, portanto, com razão, Ele
lhes negava, e impedia o acesso deles a ela, e por não terem a graça, eles não
creram.
3. Essa é uma coisa
que deve nos afetar muito; isso deve ser objeto de assombro, e deve ser
grandemente lamentado, e os ministros podem dirigir-se a Deus e queixar-se
disso a Ele, como o profeta faz aqui. Que pena que tão rica graça seja recebida
em vão, que almas preciosas pereçam à margem do tanque, porque não desejam
entrar nele e serem curadas!
O desprezo que sentem pela pessoa de Cristo, por causa da
humildade da sua aparência (w. 2,3). O
fato de terem preconceito contra sua pessoa parece ser apresentado como razão
para eles rejeitarem a sua doutrina. Quando Ele esteve na terra, muitos que o
ouviram pregar e que não podiam deixar de aprovar o que ouviram, não
consideraram nem receberam a sua mensagem porque ela vinha de alguém que tinha
uma aparência simples. Não havia
qualquer vantagem exterior que o recomendasse. Observe Aqui: 1. A condição inferior a que Ele se submeteu, e
como se humilhou e se esvaziou. A sua entrada no mundo e a sua aparência comum
não estavam, de maneira nenhuma, de acordo com as ideias que os judeus tinham
formado do Messias e suas expectativas a respeito dele. Sob vários aspectos o Senhor era exatamente o
oposto do que esperavam.
(1) Eles esperavam que
a sua origem fosse grandiosa e nobre.
Ele deveria ser o Filho de Davi, de uma família que tivesse um nome como
os nomes dos grandes homens que vivem na terra (2 Sm 7.9). Mas Ele nasceu dessa
família real e famosa quando ela já estava reduzida e arruinada. E José, esse
filho de Davi, que era seu suposto pai, era apenas um pobre carpinteiro, talvez
um carpinteiro construtor de barcos, pois a maior parte de seus conhecidos era
composta por pescadores. Isso é indicado
aqui pelo fato de Ele ser como raiz de uma terra seca, nascido de uma família
inferior e desprezível, no norte, na Galileia, de uma família da qual, como uma
terra seca e deserta, não se esperava nada verde, nada grandioso. Não se
imaginava que alguma coisa boa pudesse vir de uma região de tão pouca
reputação. A sua mãe, sendo uma virgem, era uma terra seca; no entanto, dela
nasceu Aquele que não somente é fruto, mas raiz. A semente no solo rochoso não
criou raiz; mas, embora Cristo nascesse de uma terra seca, Ele é, ao mesmo
tempo, a raiz e o fruto de Davi, a raiz da boa oliveira.
(2) Eles esperavam que Ele fizesse uma entrada pública, e
viesse com pompa; mas, em vez disso, Ele cresceu diante de Deus, e não diante
dos ho mens. Deus tinha os seus olhos sobre Ele, mas os homens não o
consideravam: Ele foi subindo como renovo, sem se fazer ouvir nem sentir, e sem
nenhum ruído. Como o trigo que cresce sem que saibamos como (Mc 4.27). Cristo
subiu como um renovo, que, poderíamos pensar, poderia ser facilmente esmagado,
ou poderia ser estragado em uma noite de frio extremo. 0 Evangelho de Cristo,
no seu início, era como um grão de mostarda. Ele parecia insignificante (Mt 13.31,32).
(3) Eles esperavam que
Ele tivesse alguma formosura incomum em seu rosto e aparência, que encantasse
aos olhos, atraísse o coração e despertasse as expectativas de todos os que o
vissem. Mas não havia nada desse tipo nele.
Não que Ele fosse deformado ou desfigurado, mas Ele “... não tinha
parecer nem formosura”, nada extraordinário que se esperava que acompanhasse a
aparência de uma divindade encarnada. Aqueles que o viam não podiam ver
qualquer beleza nele para que o desejassem, nada nele, mais do que em outro
amado (Ct 5.9). Moisés, quando nasceu, era mui formoso, a ponto de ser
considerado um feliz presságio (At 7.20; Hb
11.23). Davi, quando foi ungido, era “formoso de semblante, e de boa
presença” (1 Sm 16.12).
Mas o nosso Senhor Jesus não tinha nada disso que o recomendasse. Ou
isso pode se referir não tanto à sua pessoa, mas à forma da sua aparição no
mundo, que não tinha nada de glória perceptível em si mesmo. O seu Evangelho não é pregado com “palavras
persuasivas de sabedoria humana”, mas com toda clareza e consistência.
(4) Eles esperavam que
Ele tivesse uma vida agradável, e aproveitasse plenamente todos os deleites dos
filhos e das filhas dos homens, o que teria atraído todas as pessoas a Ele;
mas, ao contrário, Ele foi um “... homem de dores, experimentado nos
trabalhos”. Não foi somente a sua última cena que foi trágica, mas toda a sua
vida assim foi, não somente humilde e miserável: Mas uma cadeia contínua de
trabalhos, tristezas, dor e sofrimentos consumidores. - Sir R. Blackmore.
Dessa maneira, fazendo-se pecado por nós, Ele
submeteu-se à sentença
à qual tínhamos
sido submetidos pelo pecado, de
que comeríamos com dor todos os dias da nossa vida (Gn 3.17), e dessa maneira
reduziu grande par te do rigor e da rigidez da sentença, quanto a nós. A sua
condição era, sob muitos aspectos, lamentável.
Ele não tinha casa, não tinha onde reclinar a sua cabeça, e vivia de
ofertas voluntárias, encontrava oposição e ameaças, e suportava a contradição
de pecadores contra si. Seu Espírito era gentil, e sofria as marcas da
tristeza. Nós jamais lemos que Ele tivesse rido, mas lemos que Ele chorou.
Lentulus, em sua epístola ao senado de Roma, diz a respeito de Jesus: “Ele
jamais foi visto rindo”. E Ele era tão desgastado e macerado, com a dor
constante, que quando tinha pouco mais de trinta anos de idade, alguns entendem
que pensaram que tivesse quase cinquenta (Jo 8.57). A tristeza e a dor eram
suas amigas íntimas; pois Ele se familiarizava com as angústias dos outros, era
solidário a eles, e jamais colocava os seus à distância; pois na sua
transfiguração Ele falou da sua própria morte, e, em seu triunfo, chorou por
Jerusalém. Devemos seguir seu exemplo, e chorar pela humanidade.
2. A má opinião que os
homens tinham a respeito dele, por causa disso.
Sendo, de modo geral, inclinados a julgar as pessoas e as coisas segundo
o que veem os olhos, e segundo a aparência exterior, eles não viram qualquer
beleza nele para que o desejassem. Havia uma grande quantidade de verdadeira
beleza nele, a beleza da santidade e a beleza da bondade, suficientes para
fazer dele o desejado de todas as nações; mas a maior parte daqueles entre os
quais Ele vivia, e com quem convivia, não viram nele nenhuma beleza, pois ela
era discernida espiritualmente. Os corações
carnais não veem excelência no Senhor Jesus, nada que possa seduzi-los a
desejar conhecê-lo ou interessar-se por Ele. Na verdade, Ele, além de não
desejado, era desprezado e rejeitado, abandonado e odiado, o opróbrio dos
homens, um abjeto, alguém com quem os homens relutavam em conviver, e por quem
não tinham nenhuma estima. Era tratado
como alguém desprezível. Ele era
desprezado como um homem humilde, rejeitado como um homem mau. Ele é a pedra
que os edificadores rejeitaram. Eles não
desejaram que Ele reinasse sobre eles.
Os homens, que deveriam ter toda razão para melhor
compreenderem os
acontecimentos, toda ternura para não
pisar sobre um homem em desgraça - os
homens que Ele veio buscar e salvar, eles o rejeitaram: Nós
escondemos dele o nosso rosto,
olhamos para outro lado, e seus sofrimentos eram como nada para nós, embora
jamais tenha havido uma tristeza tão grande quanto a sua. Na verdade, nós não somente nos comportamos
como não fazendo dele caso algum, mas odiando-o, e detestando-o. Isto pode ser
interpretado como: Ele escondeu seu rosto de nós, escondeu a glória da sua
majestade, e puxou um véu sobre ela, e por isso foi desprezado e nós não o
estimamos, porque não podíamos ver através desse véu. Cristo se encarregou de
fazer a expiação perante a justiça de Deus pela ofensa que o homem tinha feito
à sua honra por causa do pecado (e não é possível ofender a Deus, exceto em sua
honra). E Ele a fez, não somente
despindo-se das glórias que eram devidas a uma divindade encarnada, mas também
se submetendo à infelicidade e à condenação merecida pelos piores homens e
pelos malfeitores. E assim, envilecendo a si mesmo, Ele glorificou o seu Pai -
mas esta é uma boa razão por que nós devemos estimá-lo grandemente, e procurar
honrá-lo; que seja recebido por nós Aquele que os homens rejeitaram.
A Humilhação do Messias - w . 4-9
Nesses versículos temos: Um relato adicional sobre os
sofrimentos de Cristo. Muito já foi dito antes, mas aqui há mais informações
sobre a condição extremamente humilde à qual Ele se rebaixou, humilhando-se a
si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz.
1. Ele teve dores e
enfermidades. Estando familiarizado com
essas coisas, Ele conservou essa familiaridade e não se afastou de tal
conhecimento melancólico. Dores e enfermidades lhe estavam destinadas? Ele as
suportou, e não se queixou da sua sorte; Ele as carregou, e jamais recuou,
afastando-se delas, nem afundou debaixo delas.
A carga era pesada e o caminho, longo, e, ainda assim, Ele não se
cansou, mas perseverou até o fim, até o momento quando disse: “Está consumado”.
2. Ele foi ferido e moído; Ele foi pisado, ferido e afligido.
Suas dores o feriam; Ele sentiu dor e sofrimento por elas. Elas o tocaram, na
sua parte mais sensível, especialmente quando Deus era desonrado, e quando o
abandonou sobre a cruz. Durante todo o tempo, Ele foi ferido com a língua,
quando foi criticado em tudo, contraditado, descrito com as piores
características, e teve todo o tipo de coisas más ditas contra si. Por fim, Ele foi ferido com a mão, com golpe
após golpe.
3. Ele foi ferido e
pisado. Ele foi açoitado, não sob a
restrição misericordiosa da lei dos judeus, que não permitia que um número
superior a quarenta chibatadas fosse desferido, nem mesmo ao pior dos
malfeitores, mas de acordo com o costume dos romanos. E o seu açoitamento, sem dúvida, foi ainda
mais severo, porque Pilatos pretendia que fosse um substituto à sua
crucificação, mas, no entanto, foi um prefácio para ela. Ele foi ferido, em suas mãos e seus pés, e no
seu lado. Embora fosse ordenado que nenhum de seus ossos fosse quebrado, ainda
assim dificilmente Ele teria alguma parte de sua pele intacta (que agradável
podermos ter a nossa integridade física, mesmo quando somos chamados a sofrer
por Ele). Mas desde a coroa de sua cabeça, que foi coroada com espinhos, até a
sola de seus pés, que foram pregados à cruz, nada aparecia, exceto lesões e
chagas.
4. Ele foi oprimido e maltratado (v. 7):
Ele foi oprimido, tratado de modo ofensivo, e com dureza. Ele foi acusado daquilo de que era
perfeitamente inocente, uma acusação que Ele não merecia, e com isso Ele foi
oprimido e ofendido. Ele foi oprimido,
tanto em mente como em corpo. Sendo oprimido,
Ele sofreu e, embora fosse paciente, não ficou sem ação, mas misturou suas
lágrimas com as dos oprimidos, que não têm consolador, porque do lado dos
opressores está a força (Ec 4.1). A opressão é uma aflição dolorosa; faz
endoidecer até o sábio (Ec 7.7); mas o nosso Senhor Jesus, no entanto, quando
estava oprimido, quando aflito, conservou o controle sobre a sua própria alma.
5. Ele foi julgado e aprisionado, como está implícito no fato
de que tivesse sido tirado da opressão e do juízo (v. 8). Como Deus o fez
pecado por nós, Ele foi tratado como um malfeitor; Ele foi preso e levado em
custódia, e foi feito prisioneiro; Ele foi acusado, julgado e condenado, de
acordo com as formas usuais da lei: Deus iniciou um processo contra Ele,
julgou-o em conformidade com este processo, e confinou-o à prisão da sepultura,
em cuja porta uma pedra foi colocada e selada.
6. Ele “...foi cortado da terra dos viventes” através de uma
morte prematura, embora vivesse uma vida extremamente útil, realizasse tantas
obras boas, e jamais alguém em sã consciência pudesse pensar em apedrejá-lo por
causa delas. Ele foi golpeado até à morte, levado à sepultura que foi destinada
aos ímpios (pois foi crucificado entre dois salteadores, como se tivesse sido o
pior dos três), e também com os ricos, pois foi sepultado em uma sepultura que
pertencia a José, um senador honrado. Ao morrer com os ímpios,
e em conformidade com a maneira
usual de tratar os criminosos, o Senhor deveria ter sido sepultado com eles, no lugar onde foi crucificado;
porém Deus Pai aqui predisse, e a Providência assim o ordenou, que faria a sua
sepultura com os inocentes, com os ricos, como um sinal da distinção colocada
entre Ele e aqueles que realmente mereceram morrer. Este foi um detalhe
importante em meio aos seus sofrimentos. Um relato completo do significado de
seus sofrimentos. Era um mistério muito grande o fato de que uma pessoa tão
excelente sofresse tanto. E é natural perguntar, com assombro: Como isso
aconteceu? Que mal Ele fez? Seus inimigos realmente o consideravam como
sofrendo apropriadamente por seus crimes.
E, embora não pudessem acusá-lo de nada, eles o consideravam “...
aflito, ferido de Deus e oprimido” (v. 4). Por odiarem-no e perseguirem-no,
pensaram que Deus também o fazia, pensaram que Deus era seu inimigo e lutava
contra Ele. E por isso se enfureciam ainda mais contra Ele, dizendo: “Deus o
desamparou; persegui-o e prendei-o” (SI 71.11). Aqueles que, com razão, são
feridos, são feridos da parte de Deus, pois por Ele os príncipes decretam a
justiça. E assim eles julgavam que Ele devia ser ferido, e com razão deveria
ser levado à morte, como um blasfemo, um enganador e um inimigo de César.
Aqueles que o viram pendurado na cruz não investigaram os méritos da sua causa,
mas supuseram que Ele fosse culpado de tudo aquilo de que era acusado, e que,
portanto, a vingança não lhe permitia viver. Da mesma maneira, os amigos de Jó
o julgaram como um homem ferido por Deus, porque havia alguma coisa incomum em
seus sofrimentos. E verdade que Ele foi
ferido de Deus (v. 10) — ou, como alguns
o interpretam, Ele era Deus ferido e aflito, o Filho de Deus, ainda que ferido
e aflito—, mas não com o sentido que eles pretendiam; pois, embora o Senhor
Jesus sofresse todas essas coisas:
1. Ele jamais cometeu sequer a menor transgressão para
merecer esse mau tratamento. Embora
fosse acusado de perverter a nação e de ser um promotor de sedições, isto era
completamente falso; Ele “... nunca fez in justiça”, mas andou fazendo o bem.
E, embora Ele fosse chamado de enganador, jamais mereceu esta descrição; pois
não “... houve engano na sua boca” (v. 9), conforme o testemunho do apóstolo
Pedro (1 Pe 2.22): Ele
“não cometeu pecado, nem
na sua boca
se achou engano”. Ele jamais ofendeu, nem em palavras
nem em obras, e nenhum inimigo jamais pôde enfrentar o seu desafio: “Quem
dentre vós me convence de pecado?” O juiz que o condenou reconheceu não
encontrar nenhum crime nele, e o centurião que o executou professou que
certamente Ele era um homem justo.
2. Durante os seus sofrimentos, Ele se comportou de modo a
mostrar que Ele não sofria como um malfeitor; pois, embora fosse oprimido
e humilhado, não
abriu a sua boca (v. 7), nem para
apelar por sua própria inocência, mas livremente ofereceu-se para sofrer e morrer
por nós, e não fez nenhuma objeção contra isso. O fato de que Ele se submeteu
voluntariamente a ela, com objetivos grandiosos e santos, remove o escândalo da
cruz. Pela sua sabedoria, Ele poderia
ter evitado a sentença, e pelo seu poder poderia ter resistido à execução; mas
assim estava escrito, e assim era conveniente que Ele sofresse. Este mandamento
Ele recebeu de seu Pai, e por isso “...
como um cordeiro, foi levado ao matadouro", sem nenhuma dificuldade
ou relutância (Ele é o Cordeiro de Deus). E assim como uma ovelha fica muda
perante os seus tosquiadores, ou
melhor, perante os
açougueiros, também Ele não abriu a sua boca, o que indica não somente a sua exemplar
paciência sob a aflição (SI 39.9), e a sua mansidão sob as reprovações e desprezos
(SI 38.13), mas também a sua alegre
obediência à vontade de seu Pai. “Não se faça a minha vontade, mas a
tua”. “Eis aqui venho”. Por essa sua vontade, tendo Ele tornado a sua própria
alma, a sua própria vida, uma oferta pelo nosso pecado, nós somos santificados.
3. Foi pelo nosso bem,
e em nosso lugar, que Jesus Cristo sofreu. Isto é declarado aqui, clara e
plenamente, e com uma grande variedade de expressões enfáticas.
(1) E certo que todos nós somos culpados diante de Deus.
Todos nós pecamos e fomos destituídos da glória de Deus (v. 6): “Todos nós
andamos desgarrados como ovelhas”, todos nós. Toda a raça humana está sob a
mácula dos pecados que pratica. e cada pessoa, em particular, é acusada de
muitas transgressões reais. Todos nós nos desgarramos de Deus, nosso legítimo dono,
e nos afastamos dele, dos objetivos aos quais Ele nos designou, e do caminho
que Ele nos indicou para que os alcançássemos. Nós nos desgarramos como
ovelhas, que são propensas a vagar, e incapazes, depois de desgarradas, de encontrar
o caminho de volta para casa. Esta é
nossa verdadeira característica; nós somos propensos a nos desviarmos de Deus,
mas completamente incapazes de retornar, por nós mesmos, a Ele. Isto é
mencionado não somente como nossa infelicidade (o fato de que nos desgarramos
dos verdes pastos e nos expomos aos animais predadores), mas como nossa iniquidade. Nós afrontamos a Deus, quando nos desgarramos
dele, pois nos voltamos, cada um de nós, para o nosso próprio caminho, e consequentemente
nos colocamos, como também a nossa própria vontade, em competição com Deus e
com a sua vontade. E este é um dos problemas fundamentais do pecado. Em vez de
andarmos de modo obediente, pelo caminho de Deus, nós nos voltamos, deliberada
e obstinadamente, para o nosso próprio caminho, o caminho do nosso próprio
coração, o caminho ao qual nos conduziram nossas próprias paixões e apetites
corruptos. Nós nos estabelecemos sozinhos, para sermos nossos próprios
senhores, nossos próprios escultores, para fazermos o que for da nossa vontade,
e para termos o que desejarmos. Alguns pensam que isso indica o nosso próprio
mau caminho, como uma distinção do mau caminho de outros.
Os pecadores têm a sua própria iniquidade, os
seus pecados prediletos e adorados
que cometem constantemente, o seu próprio mau caminho que apreciam
particularmente, com o qual procuram a autogratificação.
(2) Nossos pecados são nossas enfermidades e nossas dores (v.
4), como a Septuaginta apresenta nossos pecados. E também o apóstolo (1 Pe
2.24). Nossas corrupções são as enfermidades da alma, uma indisposição
habitual; nossas transgressões reais são as dores da alma, que causam dor à
consciência, se ela não estiver cauterizada. Ou nossos pecados são chamados de
nossas enfermidades e dores, porque todas as nossas enfermidades e dores são
devidas aos nossos pecados, e os nossos pecados merecem todas as nossas dores e
enfermidades, até mesmo aquelas que são mais extremas e duradouras.
(3) Nosso Senhor Jesus
Cristo foi indicado por Deus Pai para fazer a expiação pelos nossos pecados,
aceitou a tarefa, e assim nos salvou das consequências penais deles. [1] Ele foi nomeado para fazer isso pela
vontade de seu Pai; pois o Senhor depositou sobre Ele a iniquidade de todos nós.
Deus o escolheu para ser o Salvador de pobres pecadores, e desejou que Ele os
salvasse dessa maneira, levando seus
pecados e a sua punição; não idem -
a mesma coisa que nós
deveríamos ter sofrido, mas
tantunem - que era mais do que o
suficiente para conservar a honra da santidade e da justiça de Deus, no governo
do mundo. Observe aqui, em primeiro lugar, de que maneira somos salvos da
destruição à qual, pelo pecado, nos tornamos expostos: depositando os nossos
pecados sobre Cristo, assim como os pecados daquele que fazia a oferta eram
colocados sobre o sacrifício, e todos os pecados de Israel eram colocados sobre
a cabeça do bode expiatório. Nossos pecados
foram direcionados a Ele
(conforme anotação de
margem de algumas
traduções da Bíblia Sagrada); os
pecados de todas as pessoas que Ele deveria salvar, de todos os lugares e de
todas as gerações, foram direcionados a Ele, e Ele se sujeitou a eles. Eles
caíram sobre Ele (assim alguns interpretam) como se precipitaram sobre Ele
àqueles que vieram com espadas e porretes para levá-lo. O direcionamento de
nossos pecados a Cristo implica que Ele os tira de nós; nós não cairemos sob a
maldição da lei, se
nos submetermos à graça do Evangelho. Eles foram colocados
sobre Cristo, quando Ele se fez pecado (isto é, uma oferta pelo pecado) por
todos, e nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós. Assim
Ele teve a capacidade de aliviar a todos os que vêm a Ele, pesadamente
carregados, sob o peso do pecado. Veja Salmos 40.6-12. Em segundo lugar, por
quem isso foi ordenado. Foi o Senhor Deus que fez cair sobre Cristo todas as
nossas iniquidades; Ele planejou essa maneira de reconciliação e salvação, e
aceitou a expiação que Cristo iria fazer, em nosso lugar. Cristo foi
entregue à morte pelo
determinado conselho e
presciência de Deus. Ninguém, exceto Deus, tinha poder para fazer cair
os nossos pecados sobre Cristo, tanto porque o pecado foi cometido contra Ele,
e a Ele devia ser feita a expiação, como
porque Cristo, em
quem a iniquidade cairia, era seu próprio Filho, o Filho do seu amor, e
seu santo Filho Jesus, que não conheceu pecado. Em terceiro lugar, para quem
essa expiação deveria ser feita. Foi a
iniquidade de todos nós que caiu sobre Cristo; pois em Cristo existe mérito
suficiente para a salvação de todos, e uma séria oferta daquela salvação é
feita a todos, uma oferta que não exclui a ninguém que não exclua a si mesmo.
Isto indica que esse é o único modo de salvação. Todos os que são justificados
o são tendo seus pecados postos sobre Jesus Cristo, e, ainda que esses pecados
sejam muitos, Ele é capaz de suportar o peso de todos eles. [2] Ele se
encarregou de fazer isso. Deus "... fez cair sobre ele a
iniquidade...”; mas Ele
consentiu com isto? Sim, consentiu; pois alguns pensam que a
interpretação correta das palavras seguintes (v. 7) seria: Isto era exigido, e
Ele atendeu a exigência. A justiça
divina exigia expiação pelos nossos pecados, e Ele se engajou em realizar a
expiação. Ele se tornou nosso fiador,
não originalmente ligado a nós, mas
como fiador para a ação: Sobre mim seja a maldição, meu Pai.
E, por isso, quando foi abordado
para ser aprisionado, Ele
disse àqueles em
cujas mãos se entregava que iria
com eles, mas com a condição de que libertassem os seus discípulos: “Se, pois, me buscais a mim, deixai ir este”
(Jo 18.8). Pelo seu próprio engajamento voluntário Ele se tornou responsável
pela nossa dívida, e é bom
para nós que Ele
tenha assumi do essa responsabilidade. Desta maneira, Ele restaura aqueles que nele crêem.
(4) Tendo assumido a
nossa dívida, Ele submeteu-se à punição.
Diz Salomão: “Decerto
sofrerá severamente aquele
que fica por fiador
do estranho” . Cristo,
sendo fiador por nós, sofreu por
isso. [1] “ ...ele
tomou sobre si as nossas
enfermidades e as nossas
dores levou sobre si” (v. 4).
Ele não somente se submeteu às fraquezas comuns da natureza humana, e às calamidades
comuns da vida humana, que
o pecado tinha
introduzido, mas submeteu-se às
extremidades da angústia, quando disse: “A
minha alma está profundamente
triste”. Ele tomou sobre si as pesadas dores desta época
atual, para torná-las leves para nós. O pecado é a amargura e a queda na
aflição e no pranto. Cristo levou nossos pecados, e assim levou nossas enfermidades,
tirou-as de nós, para que ja mais fôssemos pressionados excessivamente. Isto é
citado (Mt 8.17), aplicado à compaixão que Cristo teve pelos enfermos que vieram até Ele para serem curados, e ao
poder que Ele manifestou para curá-los. [2] Ele fez isso sofrendo pelos nossos
pecados (v. 5): “... ele foi ferido pelas nossas transgressões”, para
expiá-las e para comprar o perdão para nós.
Nossos pecados foram
os espinhos na sua cabeça, os pregos em suas mãos e pés, e a lança no seu lado. As feridas e chagas
foram consequências do pecado, o que nós merecíamos e o que tínhamos trazido a
nós mesmos (cap. 1.6). Para que essas feridas e chagas, ainda que fossem
dolorosas, não fossem mortais, Cristo foi
ferido pelas nossas
transgressões, foi atormentado ou afligido (a palavra é usada para indicar as
dores de uma mulher no parto)
pelas nossas revoltas e rebeliões. Ele “... moído pelas nossas iniquidades”;
foram elas que motivaram a sua morte. O mesmo propósito tem o versículo 8: “...
pela transgressão do meu povo foi ele atingi do”, Ele recebeu o golpe que
deveria ter sido desferido sobre nós. E (assim alguns interpretam) Ele foi
atingido pela iniquidade do meu povo, a quem pertencia o golpe, ou a quem este
era devido. Ele foi entregue à morte pelos nossos pecados (Rm 4.25). Por isso está escrito
que foi segundo as Escrituras
(segundo essa passagem das
Escrituras), que Cristo morreu por nossos pecados (1 Co 15.3). Alguns
interpretam: pelas
transgressões do meu povo; isto é, pelas mãos ímpias dos
judeus, que eram, em profissão, o povo de Deus, Ele foi afligido, crucificado e
morto (At 2.23). Mas,
sem dúvida, nós devemos adotar a
interpretação anterior, abundantemente confirmada pela predição da missão do
Messias, solenemente transmitida a Daniel, de que Ele iria extinguir a
transgressão, e dar fim aos pecados, e expiar a iniquidade (Dn 9.24). O
... castigo que nos traz a paz estava
sobre ele, e, pelas suas pisaduras, fomos sarados.
(5) A consequência
disso para nós é a nossa paz e a nossa cura (v. 5).
[1] Eis a causa da nossa paz: A punição que traria a nossa paz estava sobre
Ele; o Senhor Jesus Cristo, submetendo-se a essa punição, desfez a
inimizade e estabeleceu uma amizade entre
Deus e o homem; Ele fez a paz pelo
sangue que derramou
em sua cruz. Embora, pelo pecado,
nós tivéssemos nos tornado odiosos à santidade de Deus e repugnantes à sua
justiça, por Cristo Deus se reconcilia conosco, e não somente perdoa nossos
pecados e nos salva da destruição, mas nos leva à amizade e à comunhão consigo,
e dessa maneira a paz (isto é, todo o bem) vem a nós (Cl 1.20). Ele é a nossa
paz (Ef 2.14). Cristo sofreu para que nós pudéssemos ficar
tranquilos; Ele satisfez a justiça de
Deus para que nós pudéssemos ter a satisfação necessária em nossas próprias mentes, e para que pudéssemos ter bom ânimo, sabendo
que, por Ele, os nossos pecados nos são perdoados.
[2] Consequentemente, nós temos a cura; pois “ ... pelas suas
pisaduras, fomos sarados”. O pecado não somente é um crime, pelo qual nós somos
condenados à morte, e cujo perdão Cristo comprou para nós, mas é uma doença,
que leva
diretamente à morte
de nossas almas,
e cuja cura Cristo
propiciou. Pelas pisaduras
que Ele sofreu (isto é, os sofrimentos que enfrentou)
Ele adquiriu para nós o Espírito e a graça de Deus, para mortificar nossas
corrupções, que são a doença de nossas
almas, e para colocar nossas almas em uma boa condição de saúde, para
que possam estar adequadas para servir a Deus, e preparadas para beneficiar-se
dele. E pela doutrina da cruz de Cristo, e os poderosos argumentos que ela nos
fornece contra o pecado, o domínio do pecado é rompido, e nós somos
fortificados contra aquilo que alimenta a doença.
(6) A consequência
disso para Cristo foi a sua ressurreição
e promoção à honra perpétua. Isto faz com que cesse perfeitamente o escândalo
da cruz; Ele se entregou para morrer como um sacrifício, como
um cordeiro, e, para tornar evidente que o sacrifício que Ele oferecia, de si
mesmo, foi aceito, aqui lemos (v. 8):
[1] Que Ele foi libertado:
“Da opressão e do juízo foi tirado”.
Embora estivesse aprisionado na sepultura, sob um processo judicial,
aprisionado pela nossa dívida, e o juízo parecesse ser proferido contra Ele,
Ele foi, por uma ordem expressa do céu, tirado da prisão da sepultura, um anjo
foi enviado com o
propósito de rolar a pedra
e colocá-lo em liberdade, e consequentemente o juízo
proferido contra Ele foi revertido
e removido; isto
resulta não somente em sua honra,
mas em nosso consolo; pois, sendo libertado de nossas ofensas, Ele foi exaltado
outra vez, para nossa justificação. Essa
liberação da fiança foi equivalente a uma quitação da dívida.
[2] Que Ele foi honrado: “... quem contará o tempo da sua
vida V’ Quem contará a sua idade, ou permanência (pois este é o significado da
palavra), o tempo da sua vida? “Havendo Cristo ressuscitado dos mortos, já não
morre. A morte não mais terá domínio sobre ele” (Rm 6.9). Aquele que foi morto
está vivo, e vive para todo o sempre. E quem pode descrever aquela imortalidade
à qual Ele
ressuscitou, ou contar os seus anos e gerações, o
tempo da sua vida? E Ele é conduzido a essa vida eterna porque, pela
transgressão do seu povo, Ele se
tornou obediente até a morte.
Nós podemos interpretar isto como indicando o tempo do seu trabalho,
assim como está escrito que Davi serviu à sua geração, e assim
atendeu ao propósito
da vida. Quem pode declarar o
quão grandioso é para o mundo um Cris to
que abençoa, pela
sua morte e
ressurreição? Como “sua linhagem”
(versão RA), alguns entendem a sua se mente espiritual: Quem pode contar o
grande número de convertidos que, pelo Evangelho, lhe será dado, como o orvalho
na manhã?
Oremos por essa sua geração, como Moisés orou por
Israel: “O Senhor,
Deus de vossos
pais, vos aumente, como sois, ainda mil vezes mais e
vos abençoe, como vos tem falado” (Dt 1.11).
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